A
cantora gospel Bianca Toledo, que passou 52 dias em coma, concedeu
entrevista à jornalista Chris Bertelli, do IG, contando seu testemunho
de recuperação.
Bianca conta que ao alcançar 36 semanas de gravidez, sentiu fortes
dores e se dirigiu ao hospital, porém foi informada pelos médicos de que
não estava em trabalho de parto. Enquanto era decidido o que fazer, o
estado de saúde da cantora foi piorando, e então os médicos optaram por
fazer uma cesárea emergencial. Quando foi levada para a sala de parto,
Bianca já estava entubada e inconsciente. Após o parto, descobriu-se que
o intestino da cantora havia se rompido, e que o líquido fecal havia se
espalhado pelo abdome, situação que os médicos consideram gravíssima.
“Todos os meus sistemas estavam falidos, meus rins pararam de funcionar e
eu fazia hemodiálise diariamente”, conta Bianca, que para os médicos,
tinha poucas chances de se recuperar.
Durante o período que esteve internada, Bianca foi submetida a dez
cirurgias de lavagem do abdome para remover o líquido fecal.
Simultaneamente, sofreu duas paradas cardíacas, e uma dessas paradas
durou seis minutos. “Posso dizer que durante esse tempo eu morri. Mas
resolvi voltar a viver”, testemunha a cantora.
O processo de recuperação fez ainda com que Bianca passasse por outra
situação delicada. Ela passou a ter problemas de coagulação, e
necessitou de mais de trezentas transfusões de sangue, além de precisar
passar por uma cirurgia no pulmão, que a fez contrair a bactéria KPC
(Klebsiella pneumoniae carbapenemase), uma das mais resistentes
infecções hospitalares. Para suprir a necessidade de doação de sangue,
seu marido e familiares fizeram campanhas de doação no Twitter, além de
pedirem orações aos fãs. “Até os médicos duvidaram que eu sobreviveria”,
afirma Bianca.
“O coma é uma agressão ao sistema nervoso central que faz com que as
funções de manutenção de vigília diminuam. Se foi um trauma, um
acidente, as chances são maiores no período de um ano. No entanto, em
casos não-traumáticos, esse tempo gira em torno de três meses”, relata o
neurologista do Hospital São Luiz, Álvaro Pentagna.
Ao chegar no 52º dia em coma, Bianca despertou, porém estava com a
musculatura atrofiada, e não conseguia se mexer. A princípio, não
conseguia distinguir se era dia ou noite, nem conseguia expressar que
entendia o que os familiares estavam tentando dizer. “Quando recebia
visitas, conseguia compreender as pessoas, mas não conseguia interagir.
As pessoas conversavam comigo sem saber se eu estava ouvindo mesmo ou
não, se estava entendendo ou não. Estar lúcida sabendo que você pode
estar morrendo é uma experiência inexplicável. O ambiente do Centro de
Terapia Intensiva é paralelo, não dá para saber se é dia ou noite. Eu só
conseguia abrir e fechar os olhos e nesse primeiro momento não havia
ninguém comigo.”
Um caso semelhante é apresentado na novela da Rede Globo, A vida da
gente. Na trama, a personagem Ana entrou em coma devido a um acidente e
acordou do coma cinco anos depois. “Quanto mais a pessoa ficar nesse
estado, maior a lesão no cérebro e menores são as chances de sair dele.
No caso da personagem, ela acordaria com muitos problemas, não teria
consciência plena. Dificilmente seria independente, exigiria ajuda para
quase tudo”, alerta Bernardo Liberato, neurologista do hospital Copa
D´Or e membro da Academia Brasileira de Neurologia.
Após despertar do coma, Bianca travou uma luta para recuperar sua
capacidade de comunicação. “Depois de um tempo, meus familiares pediram
para que eu piscasse uma vez quando a resposta fosse ‘sim’ ou duas vezes
quando quisesse expressar ‘não’. Aos poucos, consegui mexer o dedo
melhor e apontava as letras numa placa. Comecei a formar frases. Dizer o
que eu achava importante foi realmente incrível”, lembra entusiasmada.
Ela conta que a descrença dos médicos quanto à sua plena recuperação,
ainda existia, mesmo após o milagre da recuperação do coma. “Os médicos
acreditavam que a minha voz nunca mais seria a mesma. Eu pensei que se
havia vencido essa batalha, poderia vencer outra. Minha voz ficou
diferente por causa da laringe, mas não abri mão da possibilidade de
cantar e estou melhorando”.
Os rins da cantora pareciam ser a única coisa que não voltariam a
funcionar plenamente. Prestes a receber alta, Bianca ainda dependia das
hemodiálises, porém, um dia antes de ir para casa, os rins da cantora
voltaram a funcionar. “Eu tinha muita fé de que isso ia acontecer”,
conta ela, que possui lembranças de momentos marcantes dos dias que
esteve em coma. “Era como se vivenciasse tudo em outra dimensão. Lembro
de ouvir música gospel, louvores, e que isso me trazia serenidade.
Também recordo da visita de um parente, que me pediu perdão”. Bianca
afirma que ao encontrar o familiar, contou a ele que o havia perdoado e
que se sentia em paz por isso: “Ele chorou muito e disse que havia feito
o pedido em uma das visitas. É possível processar sentimentos mesmo
estando inconsciente”.
Sobre o primeiro encontro com seu filho, Bianca revela que os
sentimentos foram complexos: “Foi estranho, mas maravilhoso. Ele já era
um bebê grande. Olhou pra mim, bem para os meus olhos… e sorriu. Foi uma
surpresa. Devagar, estamos fortalecendo nosso vínculo”.
Ela está lançando um livro chamado “A história de um milagre”, que
chegará às livrarias na segunda quinzena de Dezembro. “Eu preciso dizer
que existe esperança, que é possível superar esse momento. Mesmo que os
médicos digam o contrário”.
Fonte: Gospel+
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