Entrevista com Drº Neuza Itioka


Fonte:
Jornal Manoscritto: Como foi o início do seu trabalho em ministério de libertação.

Neuza Itioka: Eu vou falar do início da minha experiência. Enfrentei pela primeira vez um caso de endemoninhamento, em 1973, quando trabalhava com a Aliança Bíblica Universitária, na capelania estudantil. Meu ponto era um trabalho pastoral com eles. Era um grupo bem calmo, bem tranqüilo. E nós nos reuníamos para estudar a Bíblia.
Havia um aluno, muito educado, que era kardecista. Conforme foi estudando a Bíblia ele foi descobrindo que o Jesus da Bíblia era diferente do Jesus deles. O Jesus deles era o líder do planeta Terra, e na linguagem dele, para se chegar a ele a pessoa tinha que se purificar. Mas ele descobriu que o Jesus da Bíblia perdoava os pecados e que não tínhamos que passar pela reencarnação. Ele percebeu que Deus tinha intimidade com as pessoas, era um Deus pessoal e que o deus deles não tinha nenhuma intimidade com eles. Essas coisas fizeram com que ele dissesse: ‘Eu quero este Deus'. E quando ele aceitou Jesus, os demônios escondidos nele, todos começaram a se manifestar. Um dia ele chegou para mim e disse que não sabia o que estava acontecendo com ele, porque sua mente estava cheia de palavrão. Ele disse: ‘Eu não sou de falar palavrão, o que é isso? Eu fui ler a Bíblia e eu só leio aquela passagem que diz que eu vou para o inferno, porque pequei contra o Espírito Santo.' Depois ele contou que esteve desacordado por horas no banheiro. Ele disse que foi ao estudo bíblico, para ter conforto, e o pessoal cantava: Aleluia, Jesus! Só que a língua dele não conseguia cantar assim, e cantava: Aleluia, Satanás. Ele ficou tão assustado e não sabia o que estava acontecendo com ele. Eu então comecei a orar. Eu não podia imaginar que eram demônios, não tinha conhecimento disso naquela época. Mas eu pensei que podia ser, porque eu tinha ouvido falar alguma coisa sobre endemoninhamento. E enquanto eu orava, vi que o menino foi ficando todo torto na minha frente. Fiquei assustada e parei de orar. Aí ele gritou: ‘Não, continua, porque enquanto você está orando eu sinto alívio'. E assim começou o confronto com uma legião de demônios que estavam naquele rapaz. Nós levamos seis meses para tirar aqueles demônios dele. É o que eu chamo de tentativa e erro. Foi a primeira vez que nos deparamos com demônios.

JM: O que aconteceu então?

NI: Depois disso, comecei a prestar atenção no que acontecia com os universitários. Via alguns que se convertiam e cresciam rapidamente. Outros que cresciam muito devagar. E verifiquei que aqueles que não cresciam ou que abandonavam as reuniões geralmente estavam aprisionados e isso estava relacionado com prática de ocultismo antes de sua conversão. Aí eu disse: misericórdia. Depois fui juntando esses fatos e comecei a dar testemunhos nas igrejas. Um dia um pastor ia fazer uma palestra sobre espiritismo e ele não conseguiu chegar ao local da palestra. Então, na última hora, naqueles 30 minutos antes, fui chamada para falar no lugar dele, porque a pessoa que estava organizando conhecia a minha trajetória. Tive que estruturar um estudo de uma hora e meia naquele pouco tempo antes da palestra. E comecei a falar. Então levei um susto e pensei: Até que eu entendo um pouco disso. E falava sem nenhuma anotação. E foi muito bom. Isso em 1978. A essa altura eu já expulsava demônios das pessoas. Cometi muitos erros, expulsei demônios de não-crentes.

JM: Por que isso é um erro?

NI: Não adianta expulsar demônios de não-crentes, porque só quem sustenta a ministração é Jesus Cristo. Na hora, por causa da autoridade do ministrador, o demônio pode ir embora, mas ele vai voltar, porque a porta fica aberta e se a pessoa não aceita a Cristo, não tem jeito.

JM: E você passou a fazer palestras sobre este assunto?

NI: Sim. Com todas essas coisas eu comecei a ficar conhecida como palestrante sobre espiritismo e demônios. Até em congressos de pastores fui convidada para falar. E fui aprendendo na prática. Em 1983 fui fazer doutorado nos Estados Unidos e minha tese foi sobre o desafio que a Igreja brasileira enfrenta diante do baixo-espiritismo brasileiro. Mais tarde publiquei essa tese, com o nome de Os deuses da Umbanda. Quando voltei dos meus estudos nos Estados Unidos, senti o chamado de Deus para o dever de esclarecer a população evangélica e os líderes sobre a questão da Umbanda e Candomblé na nossa cultura. Isso foi em 1988 e comecei a viajar pelas igrejas. Nós falamos a cada ano para cerca de 22 mil pessoas e realizamos de 2.000 a 2.500 ministrações individuais por ano. Desse grupo, 10% são pastores.

JM: Esse trabalho é que deu início ao ministério Ágape?

NI: Exato. Foi assim que comecei o Ágape Reconciliação Ministério de Libertação. Deus me deu uma visão muito ampla. Eu não estava preocupada apenas com libertação individual. Deus foi me mostrando que tínhamos que restaurar a Igreja. O lema do nosso ministério é Igreja restaurada, nação transformada. Porque nós trabalhamos em várias frentes, trabalhamos na libertação de vidas, na cura e restauração da Igreja, trabalhamos na conquista de cidades e na implantação da restauração da nação, com as conferências proféticas.

JM: Como tem sido para as pessoas aceitarem que o cristão pode ser dominado por demônios?

NI: A melhor maneira de expressar isso é usar a palavra no grego, que em português significa endemoninhado ou endemonizado, que significa ter demônios. Então é diferente a pessoa ser dominada por demônios e ter demônios. O cristão precisa resolver o seu passado, que pode ter sido um feiticeiro, um adúltero, mas é para essa gente que Jesus veio. E se a pessoa, depois de aceitar a Jesus, não passa por uma libertação bem feita, os demônios que atuavam nessas áreas podem ficar escondidos e realmente impedir o crescimento do cristão. A tradução mais literal e precisa tem que ser essa: ter demônios. Em Marcos1.23 fala de uma pessoa endemoninhada, mas algumas traduções em português falam possesso. Eu não gosto dessa palavra, porque possesso dá a conotação de dominado, a pessoa que perdeu total controle. Mas o endemoninhado é a pessoa que tem demônio em uma determinada área da vida. Pode ser na área da religiosidade, pode ser na área do sexo ou pode ser na área de glutonaria. Então, essa pessoa precisa ser liberta. O diabo é muito legalista. Da parte de Deus nós encontramos muita misericórdia, mas o diabo é legalista. Qualquer deslize da nossa parte, especialmente se nós persistirmos naquela prática e se continuamos dando brecha, através daquela brecha o diabo tem o direito de penetrar, ficar e começar a atuar na vida da pessoa.

JM: O que você me diz dessas manifestações em alguns cristãos no seminário? Por que isso acontece? Com que tipo de pessoa?

NI: Há diversas maneiras do demônio se manifestar. Há pessoas que perdem totalmente a consciência. Outras vezes o demônio se manifesta, mas a pessoa está consciente. É como se ela fosse empurrada para um canto do seu ser e outro ser toma conta e começa a falar coisas horrorosas pela sua boca e a pessoa está ouvindo tudo, é obrigada a assistir tudo. São dois tipos de invasão de demônios. Especialmente quando a pessoa perde o controle é que isso acontece. Eu sempre digo para a pessoa resistir aos demônios na mente, porque quando se perde a consciência é que eles se manifestam, para controlar a pessoa e falar pela sua boca. Mas antes de recomendar dessa forma, uso Hebreu 4.12 e digo para tomar a espada do Espírito, que é poderosa para separar a alma do espírito, juntas e medulas. Quando fazemos isso, desconectamos essa parte da pessoa que é vulnerável de ser controlada pelos espíritos. E a pessoa tem um maior controle da sua mente. Geralmente controlamos dessa forma e não deixamos os demônios se manifestarem.

JM: Essas pessoas já tiveram manifestação antes, já sabiam disso?

NI: Nem sempre. Pode ser que tenham tido, mas pela própria ficha a gente desconfia que pode haver manifestação. Depende do grau de comprometimento que a pessoa teve com as trevas e de quanto a sua mente está passiva. Mas nós fazemos todo o possível para que não haja manifestações durante as ministrações de libertação. Queremos tratar a pessoa e não ficar expulsando demônios.

JM: Qual o perfil das igrejas que recebem os seminários?

NI: A grande maioria é de igrejas neo-pentecostais. As igrejas tradicionais históricas e as tradicionalmente pentecostais têm as portas fechadas. É interessante que há dois extremos no Brasil: aquelas igrejas bem tradicionais pentecostais e as igrejas tradicionais históricas. Mas o que temos visto são muitas igrejas tradicionais se abrindo para a obra do Espírito Santo. Então elas estão se transformando em neo-pentecostais ou avivadas. E são essas igrejas que nos têm convidado. E tem sido assim uma bênção. Uma das nossas exigências para fazermos um seminário em uma igreja é que o pastor tem que estar 100% de acordo com o que vamos fazer. E que a diretoria esteja em unidade é outra condição. Porque nós já tivemos alguns problemas. Certa vez um pastor disse: ‘Vocês podem vir, vocês tem toda liberdade, façam o que o Espírito Santo mandar'. Foi uma bênção, foram três dias maravilhosos. No domingo seguinte ele chegou no púlpito e falou que concordava com isto, isto e isto, mas discordava disto, disto e disto. Arrasou comigo. Algumas pessoas ficaram tão tristes e vieram falar comigo. Mas eu fiz porque o pastor me deu toda liberdade. Então a nossa condição é essa, a gente não vai onde há divisão.

JM: Esses critérios são também para os alunos dos cursos de libertação?

NI: Sim. Inclusive todos os alunos dos nossos cursos precisam de autorização do pastor, porque não queremos criar problemas. O meu ministério não é para criar problemas. Preciso da bênção do pastor para poder ensinar aos seus membros. As igrejas têm enviado alunos, tanto do lado pentecostal quanto do lado tradicional histórico. Alguns desses alunos voltam e conseguem desenvolver um ministério de libertação, outros não conseguem, ficam fechados, amordaçados. Sempre digo para eles que nunca voltem de salto alto. Não é porque fizeram um curso que vão achar que são os tais e que os outros não sabem nada. Sempre digo que quem sabe, sabe que não sabe e o saber ensoberbece, mas o amor edifica.

Entrevista concedida a Débora De Bonis, em março de 2003.
Neuza Itioka, apóstola e líder do Ágape Reconciliação Ministério de Libertação

1 comentários:

  1. Pra. Nazareth - Nova Friburgo disse...:

    Neuza é uma grande bênçao que Deus deu à nós, igreja no Brasil, para cura, restauração, ensino e equipar-nos , de modo que possamos cumprir nossa vocação ministerial com eficácia trazendo, unida, a nação aos pés do Senhor JEsus. Nós amoamos voÊ NEuza e toda a sua equipe. Que Yahweh continue derramando seu SAnto Óleo sobre a sua cabeça!

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